domingo, 1 de março de 2015

GILLES DELEUZE

ACONTECIMENTO EM DELEUZE
(por Ândrea Cristina Pimentel Palazzolo)
 
RESUMO: Este artigo pretende apresentar a concepção deleuziana de acontecimento. Afinal, o que é
acontecimento em Gilles Deleuze? Como ele ocorre? É pessoal ou impessoal? Qual é o tempo do
acontecimento? Qual é a relação do indivíduo com ele?  Na Filosofia, Ciência e Arte, ele acontece?
 
 
O acontecimento, para Deleuze,  nasce de uma distinção de origem estóica, ou seja, não confundir o
acontecimento com sua efetuação espaço-temporal num estado de coisas. A efetuação nos corpos,
encarnação ou atualização do acontecimento, gera apenas a sucessão de dois estados de coisas, antes e depois, ao passo que a linguagem recolhe a diferença desses estados de coisas, ocorre-lhe realizar a
síntese disjuntiva do acontecimento, é essa diferença que faz sentido.
 
“Então não se perguntará qual o sentido de um acontecimento:  o acontecimento  é  o próprio sentido. O acontecimento pertence essencialmente à linguagem, mantém uma relação essencial com a linguagem; mas a linguagem é o que se diz das coisas”.
 
O acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é no que acontece o puro expresso que nos dá sinal e nos espera. Ele é impessoal,  é anônimo, não pertence a ninguém, nós é que pertencemos a ele.
No acontecimento há intensidade mais do que extensão. Não é propriamente subjetivo, embora afete a subjetividade. O acontecimento é diferente do fato, pois este é o que sucede, tem começo, meio e fim, já o acontecimento extrapola o fato, é inesgotável, ele deslocou do tempo ordinário para o extraordinário. Ele constitui um certo espaço-tempo, possui uma dimensão paradoxal, não se sabe em
que direção está indo, o acontecimento desafia a ordem do tempo (esse tempo ordinário, contado em horas, que nós conhecemos). O acontecimento desafia: a relação de causa e efeito, a identidade, a figura do sujeito.
    
O acontecimento é imaterial e incorpóreo, é o vapor que sai dos estados de coisas, não se confundindo com elas. Ele é da ordem do aiôn ( eternidade), do tempo que excede todas as formas ordenáveis de tempo e que se apresenta como um imenso tempo vazio. O acontecimento   não é da ordem de chronos, ou seja, não ė da ordem desse nosso tempo contado em minutos, segundos, horas,  do tempo classificável, do tempo cujos instantes se sucedem, mas da ordem do devir, o qual pertence ao tempo da imanência, entre-tempos que se sobrepõem.  Não é nem temporal nem espacialmente ordenável, ou para retomar uma expressão de O que é a Filosofia?: “ o acontecimento não se preocupa com o lugar onde está, e não quer saber há quanto tempo existe.”
 
Ele sempre oferece sua face da eterna juventude. Pode ser uma dança, um encontro, uma guerra, um
conceito filosófico.
 
Quem vive o acontecimento começa a enxergar aquilo que antes não se enxergava, isto pode acontecer na política, no trabalho, na vida a dois, no dia a dia, nos quais não houve necessariamente um fato, mas algo aconteceu, que mudou. O escrito, também, pode ser um acontecimento, pois aquele que escreve não é dono do que escreveu, ele pode ser atravessado por algo. O acontecimento extrapola o autor, o autor não é dono do que escreve, nem do sentido que se extrai dos seus escritos.
 
O acontecimento aparece como sendo a realidade  do virtual, mas do virtual tornado consistente, tornado entidade real sobre um plano de imanência, excedendo qualquer função possível e qualquer determinação de um espaço e de um tempo. O acontecimento efetua-se nos estados de coisas, num corpo ou numa vivência, mas enquanto sobrevoo, uma parte não se efetua, é pura reserva em estado de sobrevoo sobre os estados de coisas, entretempo ou tempo vazio e morto do Aiôn. Nada se passa, e no entanto tudo muda, porque no acontecimento tudo entra em devir.
 
Trata-se de pensar a relação possível entre aquele que vive o acontecimento e o próprio acontecimento, pois quem o vive  pertence ao acontecimento e este extrapola aquilo que cabe nessa pessoa . O acontecimento transborda o controle de quem o vive, este é apenas adjacente do acontecimento.
 
O acontecimento põe em cheque a inteireza do eu. O eixo do pensamento desloca-se do sujeito para o
acontecimento, gira em torno do acontecimento. O acontecimento não se esgota, o acontecimento aconteceu, está acontecendo e está por vir.
 
O conceito é o que apreende o acontecimento. O conceito diz o acontecimento e não a essência ou a coisa em si. O conceito de pássaro, para retomar um exemplo de O que é a filosofia?, não está no seu gênero ou na sua espécie, mas na composição das suas posturas, das suas cores e dos seus cantos, é o pássaro como acontecimento.
 
“Os conceitos filosóficos têm por consistência acontecimentos, enquanto as funções científicas têm por referências estados de coisas ou misturas: a  filosofia continua incessante mente, através de conceitos, a extrair do estado de coisas um acontecimento consistente, um sorriso sem gato , de algum modo ,  enquanto a  ciência  continua  incessantemente ,  através de funções , a atualizar  o acontecimento   num estado de coisas,  numa coisa ou num corpo referenciáveis”.
 
O conceito é pois única e exclusivamente filosófico, pois ele é posição não de proposições ou enunciados ( como na ciência) mas de problemas. A ciência, ao querer dar uma referência ao virtual, envolvendo-o num estado de coisas, trabalha com a parte do acontecimento que se efetiva, enquanto que a Filosofia, faz movimento inverso: trabalha com a parte virtual do acontecimento que não se
atualiza.
A Ciência atualiza ou efetua o acontecimento, implicando-o num estado de coisas. A Filosofia opera uma contra-efetuação, ou seja, ela pensa a parte que não se atualiza-se naquilo que acontece, abstraindo-se dos estados de coisas para libertar deles o conceito. E, nessa medida, torna o virtual consistente.
 
“ É  pois  sob dois  aspectos ligados  que o conceito filosófico e a função científica  se inseparáveis, variáveis independentes ;  acontecimentos  num plano de imanência, estados de coisas num sistema de referência”.
 
Deleuze adverte que o acontecimento é inseparável do estado de coisas nos quais se efetua, da mesma maneira que o estado de coisas é inseparável do acontecimento, sendo que este, no entanto, o excede.
 
Segundo Deleuze a Filosofia faz surgir acontecimentos com os seus conceitos, a Arte compõe monumentos com as suas sensações e a Ciência constrói estados de coisas com suas funções. A arte é
a conservação do acontecimento, ela faz do acontecimento uma sensação. A arte conserva o acontecimento, ou seja , ela  faz do entretempo ou do devir do acontecimento uma sensação e portanto um instante. A arte faz portanto do acontecimento uma sensação, isto é um universo. A arte é a criação de blocos de sensação como lugar de encarnação, de incorporação do acontecimento. A arte faz da sensação um monumento. Por seu lado, o acontecimento é a realidade do virtual que sobrevoa os mundos possíveis da arte.
 
CONCLUSÃO:
 
A  Filosofia dá consistência ao acontecimento (conceito) e tenta salvar o infinito. A ciência, ao contrário, renuncia ao infinito.  A arte cria o finito com o infinito e dá ao acontecimento do possível uma vida, um mundo possível . O acontecimento também é inseparavelmente o sentido das frases e o devir do mundo; é o que, do mundo, deixa-se envolver na linguagem  e permite que funcione. Assim, o conceito de acontecimento é exposto numa Lógica do sentido.
 
“ O brilho, o esplendor do acontecimento, é o sentido (…). Torna-te o homem de tuas
infelicidades, aprende a encarnar tua perfeição e teu brilho".
 
Referências:
 
1) Anotações de classe.
2) DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. 5ª ed.. São Paulo, editora Perspectiva, 2011.
3) DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? 3ª ed. São Paulo, editora 34, 2010.
4) ZOURABICHVILI, François. O Vocabulário de Deleuze. Ifch-unicamp.
5)ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, editora Martins Fontes – 2012.
6) LECHTE John, 50 Pensadores Contemporâneos Essenciais do Estruturalismo à Pós-
Modernidade, tradução Fábio Fernandes, editora Difel .
7) HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos, editora Martins Fontes – 2004.
8) HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas, editora Martins Fontes, São Paulo, 2012,
trad. Ivone Castilho Benetti.

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